A CIA achou que Ernesto Geisel dominaria a 'tigrada — Elio Gaspari

Evento de Geisel no Congresso em 1974

O documento foi encontrado pelo pelo professor de Relações Internacionais da FGV Matias Spektor.

O documento relata um encontro entre Geisel, Figueiredo, e os generais Milton Tavares de Souza e Confúcio Danton de Paula Avelino, que na época atuavam no Centro de Inteligência do Exército (CIE).

Ainda segundo a CIA, Geisel comentou sobre "aspectos potencialmente prejudiciais" dessa política e disse aos presentes que iria pensar sobre o assunto no fim de semana.

Geisel, porém, segundo o documento, impôs condições ao Centro de Informações do Exército (CIE), órgão apontado como responsável pelas execuções: elas só deveriam ocorrer em casos excepcionais e com a autorização do Palácio do Planalto, mediante consulta ao diretor do Serviço Nacional de Informações (SNI), general João Baptista Figueiredo.

Em 2003, o jornalista Elio Gaspari divulgou no livro A ditadura derrotada a transcrição de uma conversa de fevereiro de 1974 entre Geisel, que se preparava então para assumir a Presidência, e o general Dale Coutinho, seu futuro ministro do Exército, em que o tema da tortura é abertamente discutido. Ele enfatizou que o Brasil não pode ignorar a ameaça subversiva e terrorista. "Figueiredo apoiou essa política e defendeu a sua continuidade". No terceiro parágrafo, ao resumir durante a reunião as "ações extralegais" contra os inimigos do regime, o general Milton falou em 104 pessoas executadas "no último ano, mais ou menos".

"Esse troço de matar é uma barbaridade, mas eu acho que tem que ser", diz Geisel no diálogo, gravado pelo secretário do presidente.

O texto revela que, no dia 1º de abril, o presidente Ernesto Geisel informou ao diretor do Serviço Nacional de Informações que a política deveria continuar, mas que era preciso assegurar-se de que apenas "subversivos perigosos" fossem executados. "Tem elemento que não adianta deixar vivo, aprontando". "Temos agora na liderança das pesquisas para as eleições presidenciais um candidato que surgiu do nosso meio e um grupo expressivo de militares que, democraticamente, nesses dias consolidou a intenção de candidatar-se aos mais variados cargos de governo, desde os municipais, passando pelos estaduais até os federais", justificou ele, referindo-se à informação publicada pelo jornal "O Estado de S. Paulo" mostrando que pelo menos 71 militares de todos os postos pretendem se candidatar a presidente da República, senador, deputados federal, estadual e vereadores, em 25 estados e no Distrito Federal. No período, o Brasil também se distanciou dos EUA, selou um acordo nuclear com a Alemanha Ocidental e reatou as relações com o governo comunista da China e reconheceu a independência de Angola.

A Comissão da Verdade, que trabalhou no levantamento dos crimes da ditadura, mas que esteve limitada à responsabilização de lideranças intermediárias das forças armadas, deveria reabrir suas investigações para apurar e condenar, pelo menos perante a história, figuras até então mantidas a salvo, como Geisel e Figueiredo.

Em resposta à divulgação do informe da CIA, a assessoria de imprensa afirmou, em nota, que não possui mais documentos relativos à atuação do CIE e que por isso não pode confirmar a veracidade do relatório americano.

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