Revelados segredos de carta enterrada por prisioneiro em Auschwitz

Revelados segredos de carta enterrada por prisioneiro em Auschwitz

Todos os dias, Marcel Nadjari e outros prisioneiros eram obrigados a trabalhar em "Sonderkommando", uma das unidades de trabalho do campo de concentração nazi de Auschwitz-Birkenau, na Polónia. "Os corpos eram levados para os fornos dos crematórios, onde um ser humano ficava reduzido a 640 gramas de cinzas", lê-se ainda.

O homem, à data com 27 anos, fazia parte da equipa Sonderkommando (comando especial) que tinha como função retirar das câmaras de gás os cadáveres de todos os que ali eram assassinados.

"Todos nós sofremos coisas aqui que a mente humana não pode imaginar", escreveu Nadjari na carta escrita no fim de 1944, guardada em garrafa térmica envolvida por uma bolsa de couro enterrada perto do Crematório III, antes de o campo ser liberado, em 1945. Um serve para despir os prisioneiros, o outro é um câmara de morte. "Entram nuas e quando está cheio com cerca de 3 mil pessoas, fecham e são gaseados", explicou.

"Depois de meia hora, tínhamos que abrir as portas e o nosso trabalho começava".

A carta foi publicada este mês, pela primeira vez em alemão, numa revista através do Instituto da História Contemporânea (IfZ).

De acordo com o historiador russo Pavel Polian, a mensagem de Nadjari, é um de nove documentos distintos encontrados enterrados em Auschwitz. Os textos, escritos por cinco prisioneiros, "são dos documentos mais importantes do Holocausto".

Polian trabalhou ao longo de dez anos nos nove documentos, e os resultados foram publicados no livro "Scrolls from the ashes" ("Pergaminhos das cinzas", em tradução livre). Tal como as mensagens de outros colegas, escritas em Yiddish, apenas 10% a 15% do texto era legível.

Em 2013, um jovem russo especialista em TI passou um ano trabalhando no manuscrito borrado, voltando a tornar os contornos das letras visíveis com a ajuda de análise de imagens multiespectrais (usando imagens com diferentes comprimentos de ondas eletromagnéticas).

No total, cerca de cem dos quase dois mil presos de Auschwitz encarregados de descartar os muitos milhares de cadáveres sobreviveram ao campo de concentração. Dos cinco que escreveram e enterraram suas mensagens, Nadjari foi o único sobrevivente.

Nascido em 1917, Marcel Nadjari era um comerciante grego de Salónica.

Após a guerra, Nadjari retornou à Grécia. Em 1951, emigrou com a família para os Estados Unidos, onde acabou por trabalhar como alfaiate.

"Se você ler sobre as coisas que fizemos, vai dizer: 'Como alguém pôde fazer isso, queimar seus companheiros judeus?'", escreveu Nadjari. Nadjari morreu em Nova York, em 1971, antes de a carta ser encontrada. "Isso foi o que pensei ao início e penso muitas vezes", confessou o prisioneiro, um dos poucos que sobreviveu para ser libertado pelo Exército Vermelho.

Apesar de Nadjari, no período em que morou na Grécia, ter escrito suas memórias, parece que ele nunca contou a ninguém sobre o manuscrito que enterrara em Auschwitz. Dos cinco prisioneiros que deixaram cartas, foi o único que falou abertamente sobre vingança, afirma Polian.

"Não estou triste por morrer", escreve Nadjari, "mas fico triste por não poder me vingar como eu gostaria".

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